Article (leitura de 7 minutos)

Hora de chamar o esgotamento do desenvolvedor do que realmente é: uma falha da liderança

Quando o desenvolvedor fica esgotado, o líder dele falhou.

Chris O’Malley / Onica, a Rackspace company

Os desenvolvedores parecem ter tudo. Trabalhando na vanguarda da transformação, são valorizados e venerados – mas também são um grupo singularmente vulnerável.

Os desenvolvedores desempenham uma função exigente no setor de TI, e o esgotamento profissional é comum. Eles são, simultaneamente, mestres da tecnologia e aprendizes eternos; nunca longe de serem sobrecarregados, e sempre sujeitos a demandas irracionais e metas muitas vezes inatingíveis. Sua natureza especializada torna difícil delegar e, estando mais à mão do que, digamos, as equipes de construção de hardware, são tratados como um recurso altamente disponível e flexível. Como resultado, o tempo e o esforço do desenvolvedor podem parecer descartáveis em comparação.

Como líder de desenvolvedores e também desenvolvedor, tenho visto em primeira mão o esgotamento que podemos vivenciar. E, como líder de desenvolvedores, quero deixar claro — o esgotamento do desenvolvedor é um problema de liderança.

Sem o amparo e a proteção da liderança, essas questões podem se acumular rapidamente, deixando os desenvolvedores sem alternativa perante projetos enfadonhos que os levam ao limite. E quando aquele talento difícil de encontrar levanta e vai embora (talvez até do setor), os custos são altos para as empresas afetadas.

Os gerentes são guardiões dos elementos que podem levar ao esgotamento do desenvolvedor. São eles que atribuem o trabalho às pessoas e estabelecem os incentivos para que elas o façam. Os gerentes influenciam e moldam a cultura na qual os desenvolvedores trabalham. Então, quando um desenvolvedor fica esgotado, o líder falhou com ele. É trabalho da liderança reconhecer desde cedo os sinais de esgotamento profissional e intervir para evitá-lo a todo custo.

Se você é líder de tecnologia, essas afirmações contundentes podem preocupá-lo ou até colocar você na defensiva. Mas, em vez de focar em si mesmo, pense na sua equipe. Veja aqui como reconhecer o esgotamento do desenvolvedor e impedir que ele se espalhe pela equipe.

Se você é líder de tecnologia, essas afirmações contundentes podem preocupá-lo ou até colocar você na defensiva. Mas, em vez de focar em si mesmo, pense na sua equipe.

Combating Developer Burnout

O que causa o esgotamento do desenvolvedor?

Nem sempre a culpa pelo esgotamento do desenvolvedor é das longas horas de trabalho. Elas não ajudam, claro, mas é a lenta acumulação de múltiplas insatisfações – grandes e pequenas – que cria o ressentimento associado ao esgotamento clássico.

Essas insatisfações tendem a ter suas raízes na falta de responsabilização, na falta de controle ou empoderamento ou na falta de reconhecimento pela contribuição do indivíduo.

Períodos prolongados de trabalho altamente intenso, em que as vitórias — ou seja, enviar o código — são poucas e dispersas, constituem cenários de alto risco para o esgotamento. A manutenção de código herdado é outro exemplo típico. Primeiro que o desenvolvedor a trabalhar no código herdado dificilmente é a pessoa que o criou – logo, não há apropriação. Depois, ele fica eternamente preso à correção de bugs, sabendo que aquilo precisa mesmo é ser reescrito – uma decisão que ele não tem poder para tomar ou influenciar. E o trabalho tem importância bastante reduzida, tornando o reconhecimento improvável nesse terreno.

O esgotamento também pode surgir da falta de confiança na compreensão dos requisitos do cliente pela equipe do produto; da possível falta de controle do desenvolvedor sobre sua agenda; ou da falta de subsídios para as decisões que impactam o desenvolvedor. Todas essas são condições férteis para que o ressentimento cresça.

Mencionei acima que enviar o código é uma vitória que mantém os desenvolvedores satisfeitos. No entanto, é importante lembrar que há exceções a essa ideia. Se os desenvolvedores gastam tempo escrevendo e enviando o código do recurso errado, ou de um recurso que ninguém usa, provavelmente ficarão tão desanimados quanto se não tivessem enviado código algum.

Outro cenário para ter cuidado: é estressante se vendas, marketing e a liderança executiva tiverem, todos, liberdade para consumir o tempo do desenvolvedor. Da mesma forma, se não puderem fazer recomendações de arquitetura ou não estiverem envolvidos na tomada de decisões de alto nível, seus desenvolvedores provavelmente estarão suscetíveis aos sintomas do esgotamento.

Os três tipos de desenvolvedores esgotados – e os tipos de personalidade para ficar atento

É importante salientar que o esgotamento pode acontecer e acontece com qualquer um. No entanto, descobri que as pessoas viciadas em trabalho e profundamente investigativas são mais propensas a ele. Essas pessoas são supercuriosas e sempre querem entregar mais do que o necessário. Quando estão na melhor forma, são um trunfo para qualquer equipe.

Mas essa curiosidade pode facilmente desviar o foco do desenvolvedor daquilo que é importante no momento. Quando isso acontecer, você o verá equilibrando quatro ou cinco coisas de um vez, até que esteja regularmente empenhando 60 horas por semanas para ficar em dia. Esses desenvolvedores não precisam de microgerenciamento, mas precisam de um gerente que esteja alerta para esse cenário e possa ajudá-los a priorizar e manter o foco.

Quando o esgotamento ataca, geralmente vejo surgir um destes três tipos de desenvolvedor: o irritado, o retraído e o sem rumo.

O desenvolvedor irritado é antipático, não aceita feedback e se torna argumentativo e não colaborativo. O desenvolvedor retraído deixa de comparecer às reuniões ou não contribui naquelas em que participa. O desenvolvedor retraído some subitamente do e-mail e do Slack, e suas obrigações de código se tornam menos frequentes, extremamente pequenas ou desprovidas de detalhes. E tem o desenvolvedor sem rumo, que é propenso a se perder em tarefas pequenas e demorar muito mais que o necessário para fazer as coisas, além de recusar ajuda mesmo quando as tarefas inacabadas se acumulam em torno de si.

Prevenir o esgotamento é melhor, mais fácil e mais barato do que curá-lo

O esgotamento pode parecer repentino, mas nunca aparece do nada. Há sempre mudanças de comportamento indicativas que alguém está perigando ficar irritado, retraído ou sem rumo. O desafio da liderança é criar tanto oportunidades para detectar esses sinais quanto espaço para que os desenvolvedores exponham as preocupações ou opiniões bem antes que estas se tornem queixas.

Reuniões individuais regulares e propositais são uma ferramenta vital contra o esgotamento. Mais do que um simples cara a cara com o chefe, essas sessões devem procurar compreender o que os desenvolvedores querem de suas carreiras, para que você possa arquitetar-lhes isso proativamente. Os líderes precisam criar confiança colocando em prática as conclusões dessas sessões, direcionando os desenvolvedores ao trabalho que desejam e incentivando-os a realizar treinamentos pelos quais se interessem.

Nos bastidores, os líderes precisam monitorar de perto as cargas de trabalho. Também precisam rotacionar as pessoas para trazer variedade à equipe de desenvolvedores. E os líderes precisam se lembrar de apoiar, tanto quanto possível, os interesses pessoais e profissionais dos indivíduos. Sejam quais forem os desafios de curto prazo que isso possa causar, eles são irrelevantes em comparação com as consequências morais e produtivas de ter uma equipe esgotada.

Quando o esgotamento ocorre e você é forçado a intervir, é importante vir preparado com opções. Se você está percebendo uma mudança de comportamento, então provavelmente é tarde demais para dizer: "Parece que você está passando por dificuldades. Conte-me a respeito." Em vez disso, pense em ações alternativas: você pode remover a pessoa de um projeto problemático? Você pode atenuar a carga de trabalho dela, dar um tempo de folga e limitar-lhe as horas quando ela retornar?

O esgotamento é responsabilidade da liderança

Os benefícios de manter a motivação do desenvolvedor são tão evidentes que eu fico até meio assim de mencionar. Se você tem uma equipe experiente, que conhece a pilha e os sistemas — uma equipe satisfeita, competente e disposta a fazer o trabalho —, então vocês enviarão os produtos mais rapidamente. Serão mais bem-sucedidos.

Por outro lado, o esgotamento representa riscos sérios para as organizações e seus líderes. A insatisfação de clientes e usuários virá rapidamente na cola quando a qualidade cair e os lançamentos não concretizados começarem a se amontoar. Se os principais recursos de desenvolvimento não estiverem abordando os problemas de forma metódica, o desempenho sofrerá e afetará generalizadamente a motivação. As más vibrações de um indivíduo podem se espalhar aceleradamente pela organização ou equipe, envenenando a cultura e impactando o recrutamento e a retenção.

Às vezes, os desenvolvedores não conseguem se conter, caindo em exageros devido à forte confiança nas próprias habilidades e ao impulso natural de resolver problemas. Mas o trabalho dos gestores é aproveitar os bons aspectos desse instinto e filtrar os maus. Eles podem fazer isso incorporando na cultura medidas que priorizem a variedade, forneçam feedback relevante e empoderem as pessoas a contribuir diariamente.

E deveriam, porque o esgotamento é sempre responsabilidade da liderança.

Participe da conversa: encontre o Solve em Twitter and LinkedIn, ou siga através de RSS.

Sobre o autor

Gerente sênior do setor de Desenvolvimento Nativo da Nuvem Chris O’Malley

Chris O’Malley é gerente sênior do setor de Desenvolvimento Nativo da Nuvem (CND) na Onica, uma empresa Rackspace. Como ex-membro de diversas startups, Chris atuou em diversas funções, de designer de PCB/hardware e desenvolvedor integrado a...

Leia mais


Série sobre soluções para estratégia

Inscreva-se em um ou todos os eventos globais com influenciadores, especialistas, técnicos e líderes do setor

Crie sua conta já