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Ética tecnológica: uma pedra angular do gerenciamento de produtos

Como gerente de produto, você é o guardião, a bússola moral.

Mike Rastiello / Rackspace Technology

A ética na tecnologia não é um conceito novo, mas tem recebido bastante atenção recentemente. Todos os dias, há uma sucessão de reportagens sobre invasão, violação de senha ou coisa pior. Reportagens como o abuso de dados do Facebook pela Cambridge Analytica, a Volkswagen construindo carros para burlar testes de emissão, o Facebook coletando praticamente tudo e, após o lançamento beta do iOS 14 na Conferência Mundial de Desenvolvedores da Apple, em junho deste ano, a constatação pelos usuários de quais apps estavam "bisbilhotando" em suas áreas de transferência (e com que frequência). Essas são apenas algumas das reportagens mais importantes surgidas nos últimos anos. É quase impossível lembrar de todas.

Construindo produtos e recursos

Será que todas essas invasões, vazamentos e revelações se devem a malfeitores ou negligência? Não inteiramente. Muito provavelmente, todos esses produtos foram construídos com boas intenções. Quando criam produtos e recursos, os gerentes de produto — como eu — tentam lograr um objetivo: resolver um problema para o usuário. Ao resolver tais problemas, queremos assegurar que estamos proporcionando uma boa experiência aos nossos usuários.

É possível usar algum dos casos acima para criar uma boa experiência? Vejamos o exemplo de espionagem da área de transferência pela Apple. Existe alguma justificativa válida para que um app veja o que foi copiado para a sua área de transferência? Suponhamos que você encomendou alguma coisa on-line e recebeu no e-mail o aviso da remessa com o número de rastreamento. Você copia o número e abre o aplicativo móvel da transportadora. O app examina sua área de transferência para ver se o conteúdo bate com determinado formato de rastreamento – se bater, ele perguntará se você deseja rastrear o pacote manual ou automaticamente. Isso pode e deve ser feito no nível do dispositivo, sem que seja preciso enviar o conteúdo da área de transferência a um servidor remoto para análise. O app está suavizando a experiência do usuário e facilitando seu respectivo uso.

Por outro lado, o app pode ter sido projetado para varrer sua área de transferência e enviar o conteúdo dela a um servidor que guarda essa informação num perfil de usuário criado sem o seu conhecimento, para ser utilizada como o fabricante do aplicativo julgar apropriado. Ou pode até ser vendida a outras empresas.

Em todo recurso embarcado no produto, os gerentes de produto precisam se perguntar: "Como isso pode ser mal utilizado?"

 

É aí que entra o conceito de ética tecnológica. Em todo recurso embarcado no produto, os gerentes de produto precisam se perguntar: "Como isso pode ser mal utilizado?" Os recursos num aplicativo de namoro podem ser usados indevidamente para permitir abuso ou perseguição? As informações pessoais podem ser acessadas e usadas para jogar o usuário no ventilador? Seu produto pode ser usado para espalhar desinformação?

Embora os gerentes de produto sejam a voz do cliente, precisam pensar como um advogado do diabo — alguém que encontre erros e defeitos nas coisas e explore-os para causar danos ou cometer crimes.

Por que a ética tecnológica é importante?

Robert Baden-Powell, soldado inglês e posteriormente fundador e inspiração do movimento escoteiro, disse: "Tente deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrou..." A citação continua, mas esse pequeno trecho vale por si só.

Estamos neste planeta somente por um curto período. Devemos nos esforçar para deixá-lo melhor do que o encontramos para as próximas gerações — isso vale para o meio ambiente, a sociedade e os produtos e ferramentas que deixamos para trás. Se os gerentes de produto criarem ferramentas que permitam malefícios contra as pessoas, então não deixaremos o mundo como um lugar melhor.

Como a ética pode beneficiar uma empresa?

Criação de vantagem empregatícia

Ter ética na tecnologia e nos negócios também pode ser uma vantagem comercial quando se trata de recrutamento. A cultura empresarial vai além de mesas de pingue-pongue e cerveja na sala de descanso. As pessoas querem trabalhar numa empresa que se alinhe com seus valores – especialmente as gerações mais jovens. Quando uma empresa assume uma posição rígida em relação a um problema, seja qual for a questão ou o lado, pode cativar ou afastar de si clientes, funcionários ou potenciais colaboradores. Não é raro os profissionais de tecnologia dizerem aos recrutadores que uma política ou parceria específica em vigor não se alinha com seus valores e que eles não estão interessados em continuar a conversa. Funcionários de algumas das maiores empresas de tecnologia têm assinado petições e organizado greves para que suas empresas parem de se envolver em parcerias ou acordos dos quais discordam.

Estabelecimento de vantagem competitiva

Enraizar práticas e políticas na ética pode lhe dar uma vantagem competitiva. A Apple alega ter uma vantagem ética em matéria de privacidade e dados pessoais. A Apple afirma não se importar com seus dados pessoais e que não coleta nenhum deles. A Apple então usa essa mensagem em anúncios e materiais de marketing como proposta de valor e diferencial em relação aos concorrentes, colocando o poder nas mãos do consumidor.

O que você pode fazer?

Ouça sua equipe

Seus designers, desenvolvedores, analistas — até mesmo seus parceiros empresariais em marketing e vendas — podem prover insights valiosos e devem opinar sobre seus processos. Eles têm experiências próprias de relevância pessoal e funções capazes de influenciar recursos e produtos.

Se você tem influência sobre a contratação, sempre promova a diversidade e incentive um ambiente seguro e acolhedor em que as ideias possam prosperar.

Compreenda as consequências à jusante

Este pode ser o item mais difícil de enfrentar. Os dados de análise e utilização podem indicar várias coisas: a forma como o usuário usa o produto, que ações executa com ele e como tais ações são realizadas. Mas esses dados não dizem por que o produto está sendo utilizado nem qual é a consequência de utilizá-lo. Para responder a essa pergunta, você deve estar sempre à escuta de feedbacks. Quais pontos positivos emergem do seu produto? Quais são os pontos negativos? Como é possível corrigi-los?

Ouça o feedback e as avaliações dos clientes

Se você é gerente de produto, quase sempre recebe feedback — só que, às vezes, esse feedback passa desapercebido a você ou ao seu interlocutor. As experiências individuais das pessoas podem transparecer bastante aqui. Ouça aberta e honestamente — você não tem todas as respostas, nem deveria ter.

Traga diversidade ao processo

Certifique-se de angariar feedback de um grupo diversificado de pessoas durante as fases de pesquisa, planejamento, construção e teste. Isso é duplamente importante para produtos e aplicativos de consumo. A inclusão de um belo corte transversal de informações geracionais, culturais, raciais, de gênero, de capacidade e de orientação/identidade em cada etapa do processo de desenvolvimento do produto ajudará você a não impregnar a criação dele com preconceito ou ignorância. Você e o trabalho que realiza são fruto de suas experiências de vida. Um homem branco, hétero e saudável do subúrbio terá experiências de vida diferentes das de uma mulher branca heterossexual da mesma área, ou das de uma mulher negra da zona rural, ou das de um paralítico em cadeira de rodas que viva na cidade grande.

Cada pessoa, por conta das próprias experiências de vida, usará os produtos de forma distinta e fará escolhas diferentes. Quanto mais diversidade existir no grupo de feedback dos clientes, mais acessível e utilizável seu produto será. Quem sabe você até descubra a necessidade de novos produtos, como a Microsoft fez com controle adaptável do Xbox, que permite aos gamers com certas deficiências jogarem seus jogos favoritos. Isso é bom tanto para os usuários quanto para os negócios. Ao introduzir esse produto, a Microsoft conseguiu aumentar sua base de usuários.

Se estiver com dificuldade para montar um grupo diversificado, talvez sua empresa tenha grupos de recursos de funcionários (ERGs) que possam ajudar.

Um escopo infinito de responsabilidades e possibilidades

E o que você pode fazer? Literalmente toda e qualquer coisa. Como gerente de produto, você é o guardião, a bússola moral. Você é responsável pelos produtos que você e sua equipe constroem. Esses produtos são o prolongamento e a combinação da sua marca pessoal, da marca da sua empresa e do mundo que você deixa para trás. A ética tecnológica dita que devemos nos esforçar para descobrir e resolver problemas para os usuários, sem criar problemas para os demais.

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Sobre o autor

Gerente de produtoMike Rastiello

Mike Rastiello trabalha na área de tecnologia web profissionalmente há 15 anos e aprendeu sozinho programação básica com um livro de HTML para Leigos ainda durante o ensino médio, usando Notepad.exe, Internet Explorer e um modem de 56K. Ele...

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