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Lutando para inovar em um setor altamente regulamentado? O problema pode ser você

O caminho da transformação será mais fácil se as empresas deixarem de atrapalhar a si mesmas.

Tolga Tarhan / Rackspace

Em setores como cuidados à saúde, produtos farmacêuticos e dispositivos médicos ou, ainda, aeroespacial, defesa e fabricação, os erros custam vidas. Consequentemente, a maioria das empresas aceita e acolhe um elevado nível de regulamentação como forma de manter a confiança do público na segurança e qualidade de suas soluções ou serviços.

Porém, quando o assunto é a inovação, as regulamentações tendem a gozar de má fama. Nos setores altamente regulamentados, inovar continua sendo tão importante quanto é para os demais, ainda que os rígidos processos criados em nome da compliance limitem rotineiramente a iteração rápida e os ciclos de lançamento mais curtos associados à transformação. Nesses setores, a TI e as equipes de produto por ela apoiadas conhecem bem o desgosto de ter ideias interessantes canceladas ou cerceadas pelos guardiões da compliance.

Logo, para as organizações altamente regulamentadas, a agilidade acaba sendo duplamente importante. É imperativo que as empresas descubram como aproveitar a agilidade não apenas para impulsionar a inovação, mas também para transformar a abordagem da compliance.

E, para fazer isso, precisam estar dispostas a admitir que o empecilho à inovação talvez não sejam as regulamentações – e sim elas mesmas.

As empresas precisam estar dispostas a admitir que o empecilho à inovação talvez não sejam as regulamentações – e sim elas mesmas

Prisioneiros do processo

A percepção equivocada de que os regulamentos são uma barreira à inovação decorre da forma como as organizações, muitas vezes, se tornam prisioneiras de seus próprios processos.

Geralmente, os regulamentos descrevem os resultados e os controles necessários. As empresas criam, então, controles internos que prescrevem as formas de trabalho. Essa interpretação dos regulamentos e a conversão deles em processos fazem com que se desenvolva uma espécie de folclore acerca da legislação real. O conteúdo e o espírito do regulamento permitirão ampla flexibilidade para adaptar os controles internos à medida que as épocas ou tecnologias mudarem. Porém, na maioria dos casos, as organizações adotam políticas, muitas vezes defasadas, de executar esses controles sem desvios. Assim, as organizações ficam presas a uma abordagem específica – que foi escolhida por elas e influencia o modo de trabalho muito mais do que qualquer regulamentação.

Aí, quando as conversas de corredor, nas quais surgem algumas das melhores ideias, são podadas com "olha só, isso é contra os regulamentos", as pessoas presumem – com certa razão – que a situação está fora do controle delas.

Mas, geralmente, elas estão erradas. Está sob o controle delas adaptar processos e inovar sem comprometer a compliance. Isto é, se conseguirem levar consigo os principais interessados internos.

Transformar adversários em defensores

Obviamente, é irrealista exigir mudanças processuais rápidas e generalizadas. A maioria das organizações terá inúmeros projetos já em andamento, por meio de sistemas profundamente arraigados que são quase impossíveis de descartar.

Por outro lado, pequenas mudanças nos processos podem contribuir bastante para alcançar os avanços que permitirão à inovação prosperar. Assim como será importante o engajamento precoce com as equipes de garantia de qualidade ou garantia regulatória (GQ/GR). Esses interessados internos são parte vital do maquinário que transforma ideias em produtos de mercado – e são essenciais para tornar a mudança possível.

Primeiro, inicie uma conversa sobre quais processos de compliance você está tentando cumprir e por quê. Com base nessas informações, você pode propor controles alternativos que proporcionem os mesmos resultados dos processos existentes e possibilitem maior agilidade. Uma vez devidamente documentadas, essas pequenas exceções podem ser aprovadas pelas partes interessadas de GQ/GR e implementadas em toda a organização.

Sem esse engajamento precoce, muitos projetos de inovação perdem, na melhor das hipóteses, uma grande oportunidade de recrutar defensores valiosos. Na pior das hipóteses, adquirem alguns adversários poderosos e, talvez, imbatíveis.

Por exemplo, um de nossos clientes, um fabricante de dispositivos médicos, tinha um processo de desenvolvimento de produtos fortemente ligado a uma série de testes manuais realizados por humanos. Automatizar a testagem reduziria significativamente o tempo de lançamento de novos produtos no mercado, e havia tecnologia de nuvem disponível para fazer isso. No entanto, cada teste era monitorado por um rígido sistema de controle de qualidade que era fundamental para todo o fluxo de trabalho e a postura de compliance deles – e o tal sistema não sairia dali tão cedo.

Com a adesão da GQ/GR, conseguimos combinar vários dos testes existentes em um único teste automatizado e, em seguida, acomodar esse teste em uma etapa individual no fluxo de trabalho do controle de qualidade. Agora, essa empresa pode adiantar os ciclos de desenvolvimento de produto com rapidez, utilizando praticamente um único clique para confirmar se os testes ocorreram e os resultados foram avaliados.

Encontrar o veículo certo para a mudança

É difícil realizar qualquer transformação sem que haja uma iniciativa empresarial ligada a ela. Por isso, as conversas iniciais com a GQ/GR devem girar em torno de um desafio empresarial atual e urgente.

Pela minha experiência, uma equipe de projeto individual trabalhando em uma iniciativa green field/blue sky com apoio executivo é o veículo ideal para testar mudanças ou exceções nos processos. Por exemplo, prazos de lançamento de produtos ou serviços com um roteiro para atualizações subsequentes e regulares proporcionam um incentivo essencial para a mudança, especialmente quando todas as implicações financeiras concomitantes são consideradas. E um projeto isolado pode abrir caminho para uma inovação mais ampla no futuro, ao mesmo tempo em que tranquiliza os responsáveis pelos processos atuais de que todas as mudanças serão controladas e gerenciáveis.

Esses fatores serão decisivos para garantir o escopo de que você precisa para se mover mais rápido e mais agressivamente do que se movia no passado. Eles também dão às equipes de GQ/GR e às outras partes interessadas algo a que possam se associar e contribuir, em vez de questionar e contestar.

Velocidade e compliance podem coexistir

Mesmo em setores com pouca ou nenhuma regulamentação, inovar pode ser um processo difícil e confuso. Porém, os setores altamente regulamentados contam com o desafio adicional de ter cronogramas definidos por processos bem-intencionados, mas equivocados – uma severa desvantagem quando a inovação depende de movimentação rápida para ser bem-sucedida.

Em última análise, a inovação nesses setores envolve tanto encontrar maneiras de se mover rapidamente, sem sacrificar a segurança ou a compliance, quanto desenvolver novos produtos, serviços e soluções. Isso, por si só, pode ser pensado como um objetivo adicional da inovação: como dar à organização os artefatos e insumos necessários para atender às restrições regulatórias e de qualidade e, também, oferecer a agilidade necessária para permanecer competitivo e atrair os melhores talentos?

Se você está em um desses setores, pode tornar a inovação mais rápida e (um pouco) menos dolorosa ao envolver os colaboradores regulatórios e de compliance desde cedo, com um projeto no qual seja possível atuar em colaboração para identificar mudanças processuais pequenas, mas significativas.

Ou pode voltar a bater de frente com as partes interessadas de GQ/GR.

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Sobre o autor

Chief Technology Officer

Tolga Tarhan

Como CTO da Rackspace Technology, Tolga Tarhan lidera a visão, estimulando a inovação e a estratégia de nossas ofertas de tecnologia. Com mais de duas décadas de experiência na liderança de equipes de produto e engenharia e como tecnólogo prático...

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